Saturday, November 25, 2006

O dia da consciencia negra se foi. E a consciencia, também.

Neste ultimo dia 20, segunda-feira, "comemorou-se" o dia da Consciencia Negra, ou dia de Zumbi de Palmares. Mas, aí é que eu me pergunto: onde está a tal da conscincia negra que está se comemorando?

Sinceramente, esta data, que em algumas cidades foi decretada feriado, é só uma jogadinha de marketing, coisinha boba para distrair a atenção para o problema da descriminação e da segregação racial que vivemos. E tem muitas pessoas que parecem querer que essa suposta diferença de raças se perpetue... para sempre. Como? Explico.

Eu não concordo nem com essa história de cotas, nem com essa história de "coisas para negros", sabem porque? No exemplo das cotas, para que se supõe que elas foram criadas? Para tratar de forma igual, e dar as mesmas oportunidades para os estudantes negros, certo? Mas... porque "cotas para negros"? Parece que ser negro é uma doença. Eles querem sempre manter o negro como algo a parte. Essa história de cotas não é para promover a igualdade coisa nenhuma, é só para manter a segregação racial, para garantir que o negro "seja diferente" do branco sempre. É tipo"negros aqui, brancos, aqui". Dizem que é para reparar todo um passado de exploração e maltratos (presente também, não?), mas creio que existem outras formas de se reparar tudo isso, como por exemplo, dando verdadeiras igualdades de oportunidades para todos, como bons estudos, dando as mesmas condições, não para negros e brancos, mas sim para os seres humanos, pois é isso que somos. A minha cor negra não me faz nem melhor nem pior do que ninguem, embora muitas pessoas pensem isso.

E eu vi muitos programas nesse dia, onde se discutiam a questão da consciencia, mas... é uma minoria negra no Brasil que realmente tem consciencia. A maioria está excluida, está jogada às traças, esquecida pelo governo. A maioria não tem nem idéia de quem foi Zumbi; não tem idéia de nada sobre o passado dos negros, e sabem porque? Questão cultural. Às escolas não convém mostrar a história dos heróis negros (Zumbi, Martin Luther King, Malcom X), e sim a história de safados assassinos brancos (engraçado como aprendemos mais sobre a história de presidentes norte-americanos do que sobre os proprios brasileiros), como Hitler, Mussolini, e outros tantos. É tudo uma questão de cultura; cultura essa que nunca é semeada, seja no jovem negro, seja no jovem branco, no indio, enfim, em ninguem. Desde cedo aprendemos que o negro sempre foi "inferior", sempre foi escravo, que o branco foi quem fez as benfeitorias no mundo todo, e que ao negro só sobrou o papel de carregador de bandejas de estrela de novela de olho azul.

E a segregação já é semeada desde cedo, não só na escola, mas em tudo quanto é lugar: você vai em uma loja, se é negro, é abordado e olhado de um geito diferente do habitual (não falo isso só por falar, falo por experiencia própria); até mesmo quando você tenta ajudar alguem, é olhado com medo pelas pessoas (me ofereci para ajudar duas moças a empurrarem uma moto, e elas ficaram morrendo de medo, até aparecer um amigo meu, e eelas ficarem "supostamente tranquilas"); você liga a tv, e sempre vê associado à beleza, a imagem de um branco, de olhos azuis, loiro, alto, ou uma mulher loira, de olhos verdes. O que isso tudo não gera na cabeça de jovens crianças negras? Principalmente nas meninas, que começam a se olhar no espelho e se acharem inferiores, por causa da cor, por causa do cabelo. E é aí que se vai mais um pedaço da consciencia negra, pois a midia tentando impor que beleza é igual a ser branco, faz com que muitas meninas tenham vergonha da sua cor da pele, e queiram ser "falsas brancas". E o bombardeio vem de todas as midias, seja de revistas, seja de novelas, seja de onde for. Já disse MV Bill: "pra que, porque, só tem paquita loira? Aqui não tem preta como apresentadora." E que me provem o contrario? Agora vem me falar que porque tem meia dúzia de negros que trabalham na midia aqui e ali, tá havendo igualdade. Igualdade é o cacete. E isso não é so com mulheres não, viu... tem muito marmanjo com vontade de ser um Brad Pitt aí.

E a segregação também é semeada muitas vezes pela própria familia, onde sempre tem aquele parente que vem com piadinhas racistas, com comentários cretinos do tipo "tinha que ser preto" ou coisas do genero. Uma criança, dificilmente entenderá o verdadeiro perigo daquilo tudo, mas isso vai se acumulando no cérebro dele, e vai contribuindo para que ele começe a ter vergonha da própria cor.

E também não pensem que a tal da Igreja é santa. Quem foi que disse que Jesus tinha olhos azuis e era negro? Para você ver... até aí a personificação da bondade, segundo a própria Igreja, dita a "mãe da moral", é branca e de olhos azuis, igualzinho a tv. A Igreja também contribui para semear o racismo, mesmo que por vezes de forma implicita. E é fato que, analisando a região onde supostamente teria nascido Jesus, ele não seria loiro de olhos azuis, e sim pardo. Mas... vocês acham que a Igreja aceitaria ter um Jesus negro? Não, pois para eles, é dificil saber que existem negros que não sejam bandidos, traficantes, drogados...

Sabe, realmente algumas pessoas tentam fazer ser dificil ter uma pele escura: discriminam, menosprezam, tratam como bandido, olham com medo. Mas, pelo menos eu, gosto, e muito, da cor da minha pele, que como eu disse, não me faz melhor nem pior do que ninguém.

Creio que é isso. Se querem mesmo semear a igualdade, parem com esse papo de tratar negros "como algo diferente": se é para ser igual, que tal ser tratado de forma igual? Ou eu não sei, e só porque uma pessoa é negra, ela é incapaz, ela é inferior a um branco? Creio que antes de analisarmos "negro e branco", temos que falar em "ser humano".

E outra... que consciencia é essa de se dizer "moreninho", "escurinho"? Se tem vergonha de ser negro, preto, seja branco.

Wednesday, November 15, 2006

Definição de Anarquia

Por Errico Malatesta


Anarquia é uma palavra grega que significa literalmente "sem governo", isto é, o estado de um povo sem uma autoridade constituída.

Antes que tal organização começasse a ser cogitada e desejada por toda uma classe de pensadores, ou se tornasse a meta de um movimento, que hoje é um dos fatores mais importantes do atual conflito social, a palavra "anarquia" foi usada universalmente para designar desordem e confusão. Ainda hoje, é adotada nesse sentido pelos ignorantes e pelos adversários interessados em distorcer a verdade.

Não vamos entrar em discussões filológicas, porque a questão é histórica e não filológica. A interpretação usual da palavra não exprime o verdadeiro significado etimológico, mas deriva dele. Tal interpretação se deve ao preconceito de que o governo é uma necessidade na organização da vida social.

O homem, como todos os seres vivos, se adapta às condições em que vive e transmite , através de herança cultural, seus hábitos adquiridos. Portanto, por nascer e viver na escravidão, por ser descendente de escravos, quando começou a pensar, o homem acreditava que a escravidão era uma condição essencial à vida. A liberdade parecia impossível. Assim também o trabalhador foi forçado, por séculos, a depender da boa vontade do patrão para trabalhar, isto é, para obter pão. Acostumou-se a ter sua própria vida à disposição daqueles que possuíssem a terra e o capital. Passou a acreditar que seu senhor era aquele que lhe dava pão, e perguntava ingenuamente como viveria se não tivesse um patrão.

Da mesma forma, um homem cujos membros foram atados desde o nascimento, mas que mesmo assim aprendeu a mancar, atribui a essas ataduras sua habilidade para se mover. Na verdade, elas diminuem e paralisam a energia muscular de seus membros.

Se acrescentarmos ao efeito natural do hábito a educação dada pelo seu patrão, pelo padre, pelo professor, que ensinam que o patrão e o governo são necessários; se acrescentarmos o juiz e o policial para pressionar aqueles que pensam de outra forma, e tentam difundir suas opiniões, entenderemos como o preconceito da utilidade e da necessidade do patrão e do governo são estabelecidos. Suponho que um médico apresente uma teoria completa, com mil ilustrações inventadas, para persuadir o homem com membros atados, que se libertar suas pernas não poderá caminhar, ou mesmo viver. O homem defenderia suas ataduras furiosamente e consideraria todos que tentassem tirá-las inimigo.

Portanto, se considerarmos que o governo é necessário e que sem o governo haveria desordem e confusão, é natural e lógico, que a anarquia, que significa ausência de governo, também signifique ausência de ordem.

Existem fatos paralelos na história da palavra. Em épocas e países onde se considerava o governo de um homem (monarquia) necessário, a palavra "república" (governo de muitos) era usada exatamente como "anarquia", implicando desordem e confusão. Traços deste significado ainda são encontrados na linguagem popular de quase todos os países. Quando essa opinião mudar, e o público estiver convencido de que o governo é desnecessário e extremamente prejudicial, a palavra "anarquia", justamente por significar "sem governo" será o mesmo que dizer "ordem natural, harmonia de necessidades e interesses de todos, liberdade total com solidariedade total".

Portanto, estão errados aqueles que dizem que os anarquistas escolheram mal o nome, por ser esse mal compreendido pelas massas e levar a uma falsa interpretação. O erro vem disso e não da palavra. A dificuldade que os anarquistas encontram para difundir suas idéias não depende do nome que deram a si mesmos. Depende do fato de que suas concepções se chocam com os preconceitos que as pessoas têm sobre as funções do governo, ou o "Estado" com é chamado.

Errico Malatesta in "anarquia", 1907.

Thursday, November 02, 2006

Alguem pode me responder...?

Rótulos: pra quê?


Será que alguem pode me responder, porque muitas pessoas (a grande maioria delas) tem uma necessidade gritante de rotular aos outros, principalmente àqueles que não se encaixam em padrõezinhos estúpidos, que muitos seguem cegamente? Não sei ao certo, mas isso dev dar algum tipo de prazer as pessoas que o fazem, sabe. Parece que está no manual do "bom cidadão", lá entre as primeiras regras, que ele deve ser "ALGO", que ele deve ser rotulado.

Mas outras pessoas parecem se sentir bem com os rótulos que ganham, e apenas fazem mais para valoriza-los (se é que dá para se valorizar algo assim...). Pessoas que sentem necessidade de serem iguais as outras. Acho que elas creem que isso é mais fácil, pois não precisam ter um estilo de vida própria, basta seguir aos outros, basta seguir o que está na moda.

E sabem o que mais me dá nojo? São aquelas pessoas que se dizem as "seguidoras da moral", mas que não passam de falsos moralistas de merda, que se dizem liberais, que aceitam todo tipo de opinião, mas que na verdade tentam impor sua verdade como verdade aboluta, e não conseguem/querem/sabem dialogar, discutir, argumentar, justamente por não ter argumentos. Apenas o rotulam e não o aceitam por ser diferente daquilo que lhes foi implantado na mente que é o "cidadão". O que não for isso merece, no melhor estilo Exterminador do Futuro, ser banido; ou melhor, como no nosso caso, rotulado.

Agora, não pensem que falo isso da boca para fora. Eu, infelizmente, vivo num mundo assim. Sou vitima constante dos rótulos. É questão de abrir a boca e falar um não, em meio a milhares de sim, e pronto: rótulo! Seja de louco, de inconsequente, rebelde, revoltado, irresponsável. Seja da merda que for, mas tem que ter um nome para te tratarem. Mas, é como eu tenho para mim: se sendo como sou, sou irresponsável, sou louco, espero jamais ser responsável e são.
Mas, no final das contas, agora acho que entendo porque o ser humano tem essa necessidade intrínseca de se rotular: porque o ser humano deixou de tentar ser HUMANO, e se conformou em ser PRODUTO. Basta ver como "agimos" em troca do famigerado e maldito dinheiro: nos vendemos, nos alugamos, nos prostituimos, nos matamos, nos traímos. E, em um produto, nada mais necessário do que um maldito rótulo de merda.